PINTURAS

Preciso desenhar,

Tenho vontade de desenhar

Treinar meu traço

Ver ele expressado, riscado, contrastado,

Pensar no meu desenho me angustia,

Tenho mais pressa em traçar do que pensar.

O que desenhar?

Preciso dedicar tempo para as minhas elaborações

e me desprender da busca por sentidos…

 

Não há censuras. Desenhos, rabiscos de cadernos, imagens que me agradem visualmente, que combinem com meu gosto. Textos transcritos manualmente, textos de revistas. Provocam-me idéias que animam sempre uma nova produção. A partir daí surge os rabiscos iniciais, as linhas que logo serão vinculadas à forma, surge o desenho.

Linhas escuras no plano claro, perspectiva, simulação, tudo é válido na tentativa de chocar-se precipitadamente com a obra. Imaginar, iniciar, complementar, aprimorar, modificar, chegar em algum ponto, em algo que tenha sentido, nexo, explicação, entendimento.

 

Desenhos passam a projetar a realidade da obra (muitas vezes ficção), passam a auxiliar no modo como a obra irá comunicar e como plasticamente será apresentada.

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Paisagens Humanas

Entre uma realidade composta de dados, métrica, objetiva, temos outra erguida em sensações, em afetos, em experiências particulares e abstratas. Entre o mundo tangível, palpável, reconhecível muitas camadas o sobrepõem e o compõem. Tão reais quanto à forma da cadeira platônica. O digital, as ondas magnéticas, pulsos energéticos, a mais pura reflexão abstrata, enfim, a imaterialidade, compõe uma realidade complexa e em fluxo, em permanente movimento no qual as fronteiras se liquidificam.

Pode haver quem diga que os trabalhos de Leonardo Lessa não seriam paisagens. Mas a paisagem é uma invenção rastreável na história. É uma percepção abstrata do mundo que se revela nos códigos compartilhados de uma cultura. Ela é, e, não é, representacional. É um vira “ser” que possui o status de “ser”. As paisagens exibidas por Lessa são compostas deste fluxo, de construção imagética, tão real quanto suas sensações, seus sentimentos, suas experiências de vida, que se materializam em uma tela, e através dela. Não de modo meramente racional e aplicável, como em uma lógica embasada em causa e efeito. Mas no qual o ato de pintar, presentifica e materializa um “ser”, composto do passado, do presente e da projeção de um futuro possível. De um futuro desejável, mas não necessariamente realizável.

O que vemos não são necessariamente mãos, são projeções de relações afetivas, materializadas na forma de mãos. Que compõem paisagens de afetos, de sensações, de ideias. Entretanto, potentemente materializadas. E é nesta ação do fazer, no qual a matéria, os afetos, as projeções e a mão que constrói, dão corpo a um ser: pintura.

 

Felipe Caldas

Doutorando PPGAV – UFRGS